HERMES LITE II

A REVOLUÇÃO SDR NA EVOLUÇÃO DO RADIOAMADORISMO

TEAMA APRESENTADO PELA URPE NA NET-NR EDIÇÃO 331 DO DIA 03 DE NOVEMBRO DE 2026

Introdução – o radioamadorismo está evoluindo

O radioamadorismo sempre foi uma atividade ligada à experimentação, à curiosidade e à evolução tecnológica. Durante décadas, acompanhamos a passagem dos rádios valvulados para os transistorizados, a chegada dos sintetizadores de frequência, dos filtros digitais, dos processadores de sinal e, mais recentemente, dos rádios definidos por software, conhecidos como SDR.

Essa evolução trouxe uma mudança importante na maneira de operar uma estação. Em um rádio tradicional, grande parte das funções está concentrada no próprio equipamento. Com o SDR, muitas tarefas podem ser executadas digitalmente e controladas por um computador.

É nesse cenário que encontramos o Hermes Lite 2: um transceptor HF QRP de arquitetura aberta, pensado para oferecer uma plataforma flexível, que pode ser explorada com diferentes programas e ferramentas.

A história por trás do Hermes Lite

O Hermes Lite surgiu de uma ideia de engenharia bastante interessante: aproveitar componentes e tecnologias que já existiam no mercado para desenvolver um transceptor SDR acessível à comunidade de radioamadores.

Um dos componentes importantes dessa história é o AD9866, da Analog Devices. Esse circuito integrado foi originalmente desenvolvido para aplicações de comunicação de banda larga, incluindo equipamentos da família de modems ADSL. Desenvolvedores perceberam que suas funções de conversão e interface de sinais poderiam ser aproveitadas em uma arquitetura de rádio definido por software.

É importante explicar corretamente esse ponto: não se trata simplesmente de pegar a placa completa de outro rádio e reaproveitá-la. A engenhosidade do projeto foi adaptar um componente originalmente destinado a outra aplicação e integrá-lo a uma arquitetura de transceptor SDR. A primeira geração também recorreu a uma placa FPGA de desenvolvimento; posteriormente, o Hermes Lite 2 evoluiu para uma placa própria, reunindo os principais circuitos necessários ao funcionamento.

O projeto cresceu com a colaboração de uma comunidade internacional, seguindo uma filosofia aberta: compartilhar documentação, código, melhorias e conhecimento. O resultado é um equipamento compacto, de baixo custo relativo e com grande potencial de experimentação.

O que é SDR?

SDR significa Software Defined Radio, ou Rádio Definido por Software. Em um rádio convencional, muitas funções são executadas por circuitos específicos: osciladores, filtros, misturadores e demoduladores. Em um SDR, uma parte significativa dessas tarefas é realizada digitalmente.

O sinal captado pela antena passa pelos circuitos de radiofrequência e conversão do equipamento. Em seguida, os dados digitais são processados por lógica programável e por softwares executados no computador. Dependendo da arquitetura, isso permite alterar filtros, modos, largura de banda e outras características sem precisar trocar circuitos físicos.

O software passa a fazer parte da própria experiência de operação. O rádio deixa de ser apenas um conjunto fechado de funções e passa a ser uma plataforma que pode ser configurada e ampliada.

A grande engenhosidade: separar o rádio do processamento

O rádio fica responsável pela função de rádio. O computador fica responsável por grande parte do processamento e pela interface de operação.

Talvez essa seja a característica mais interessante do Hermes Lite. Em muitos rádios convencionais, recepção, transmissão, processamento digital, filtros, interface e controles estão reunidos dentro do mesmo equipamento. No Hermes Lite, a arquitetura distribui essas responsabilidades.

O Hermes Lite continua sendo um transceptor completo em sua função de radiofrequência: possui circuitos de recepção e transmissão, conversão de sinais e FPGA, que participa do processamento digital. A conexão Ethernet transporta os dados entre o equipamento e o computador.

No computador, os programas podem executar grande parte das tarefas de demodulação, filtragem, redução de ruído, visualização do espectro, controle e processamento de áudio. Assim, o equipamento físico não precisa concentrar sozinho toda a inteligência da estação.

Essa separação traz uma vantagem importante: o computador pode ser atualizado ou substituído, e novos programas podem oferecer recursos diferentes sem que seja necessário modificar a placa do rádio. O mesmo hardware pode proporcionar experiências de operação distintas conforme o software escolhido.

Isso não significa que o Hermes Lite seja uma interface passiva ou que todo o processamento aconteça exclusivamente no computador. O FPGA e os circuitos internos realizam tarefas essenciais. A grande sacada é distribuir as funções de maneira inteligente entre o hardware de rádio e o computador.

Em resumo: o Hermes Lite não precisa carregar sozinho toda a inteligência da estação. Ele utiliza o computador como uma extensão de sua capacidade de processamento.

Hermes Lite versus um rádio QRP convencional

O Hermes Lite 2 é um transceptor QRP, com potência de transmissão em torno de 5 watts, conforme a configuração e as condições de operação. Mas sua proposta é diferente da de muitos rádios QRP convencionais que já estão no mercado há anos.

É importante reconhecer que os QRP tradicionais podem ser excelentes equipamentos, com boa sensibilidade, seletividade, recursos digitais e operação autônoma. A diferença principal não é afirmar que um é sempre melhor que o outro: é a arquitetura e a liberdade de configuração oferecida pelo SDR.

Rádio QRP convencionalHermes Lite 2
Grande parte das funções e da interface é definida pelo projeto do fabricante.Grande flexibilidade por meio de diferentes softwares compatíveis.
Normalmente possui controles e interface próprios no equipamento.A operação e a interface são realizadas principalmente pelo computador.
Recursos de visualização dependem do que o equipamento oferece.Pode oferecer Panadapter e Waterfall por meio do software.
Processamento digital depende dos recursos implementados no rádio.Pode aproveitar diferentes ferramentas de DSP disponíveis nos programas.
Atualizações e novas funções dependem do firmware e do suporte ao modelo.Projeto aberto e comunidade colaborativa permitem experimentar melhorias.
Pode operar de forma independente do computador.Depende do computador e do software para a experiência completa de operação.

O Hermes Lite não pretende substituir todos os rádios QRP existentes. Sua proposta é oferecer uma plataforma flexível. Enquanto um QRP convencional costuma entregar uma experiência construída em torno do próprio equipamento, o Hermes Lite permite que a experiência seja bastante influenciada pelo software utilizado.

A liberdade de escolher o software

Um dos grandes diferenciais do Hermes Lite é não ficar preso a uma única interface de operação. O projeto está relacionado ao ecossistema openHPSDR e conta com diferentes opções de software, embora a compatibilidade e os recursos variem conforme a versão, o sistema operacional e a configuração.

  • Quisk – Software de código aberto, com suporte ao Hermes Lite e opções de configuração para recepção e transmissão.
  • SparkSDR – Interface SDR com recursos de visualização e integração com diferentes ferramentas e modos digitais.
  • SDR Console – Programa conhecido pela interface visual, espectro, waterfall, filtros e ferramentas de operação SDR; verificar o suporte específico à versão e ao hardware.
  • PowerSDR – Software tradicional do ecossistema HPSDR, com recursos de operação e processamento.
  • Thetis – Interface SDR avançada, com filtros, processamento e controles detalhados; a compatibilidade depende da versão e da configuração utilizada.

Cada programa apresenta características próprias. Alguns priorizam simplicidade; outros oferecem ferramentas avançadas, opções de processamento e integração com aplicativos externos. Nem todos os recursos estão disponíveis em todos os programas, e é importante conferir a documentação de compatibilidade antes de escolher uma configuração.

A grande vantagem é poder experimentar. O operador pode testar interfaces diferentes, comparar resultados e escolher o ambiente que melhor atende à sua maneira de operar.

Software Tethis

DSP – processamento digital de sinais

DSP significa Digital Signal Processing, ou Processamento Digital de Sinais. É uma das tecnologias centrais dos rádios SDR. Por meio do DSP, o software modifica a maneira como o sinal recebido é filtrado, demodulado e apresentado ao operador.

  • Filtros passa-faixa e ajuste de largura de banda.
  • Redução de ruído e filtros notch para interferências específicas.
  • Equalização e ajustes de áudio.
  • Controle de ganho e processamento de sinais.
  • Ferramentas específicas para diferentes modos de operação.

Como parte desse processamento é realizada por software, recursos podem ser aprimorados, ajustados ou substituídos por atualizações e por outros programas compatíveis.

Inteligência Artificial: uma nova fronteira na recepção de áudio

A Inteligência Artificial começa a abrir novas possibilidades para o processamento de áudio em comunicações. Em uma operação SSB, por exemplo, o operador pode enfrentar ruído atmosférico, interferências elétricas, ruído de fundo e outras estações na mesma frequência. Os filtros tradicionais ajudam, mas nem sempre conseguem tornar a voz suficientemente inteligível.

Alguns sistemas baseados em aprendizado de máquina utilizam modelos treinados para reconhecer características da voz e atenuar parte dos ruídos presentes no áudio. Isso pode ajudar a melhorar a inteligibilidade em determinadas condições.

  • Redução inteligente de ruído de fundo.
  • Atenuação de ruídos contínuos ou variáveis.
  • Melhoria da inteligibilidade da voz em determinadas situações.
  • Processamento de áudio em tempo real, conforme a capacidade do computador.
  • Integração com programas de rádio por meio de dispositivos de áudio virtual.

Uma possibilidade é utilizar ferramentas externas de processamento de áudio baseadas em IA, integradas ao computador que controla o Hermes Lite. Projetos como RFWhisper são exemplos dessa linha de experimentação, voltada à redução de ruído em áudio de rádio.

É importante deixar claro que a IA não está incorporada diretamente à placa do Hermes Lite 2. O processamento é realizado no computador, por meio de programas e ferramentas compatíveis. A disponibilidade, o desempenho e a integração dependem da ferramenta, do sistema operacional e da configuração da estação.

Também não é correto afirmar que a IA recupera qualquer sinal: se a informação foi completamente perdida no ruído ou não chegou a ser recebida, o processamento não consegue recriá-la com garantia. Ainda assim, a combinação de SDR, computador e IA abre uma possibilidade promissora para tornar a recepção mais confortável e, em determinadas condições, mais inteligível.

O rádio recebe o sinal. O software processa. A Inteligência Artificial pode ajudar a separar o que interessa daquilo que atrapalha.

Integração com os modos digitais

A integração com programas externos permite que o Hermes Lite participe de diferentes atividades do radioamadorismo. Com as conexões e configurações adequadas, a estação pode combinar o SDR com ferramentas específicas para cada modalidade.

  • FT8 e FT4 – Com o WSJT-X, para contatos digitais e experimentação com sinais fracos.
  • PSK e RTTY – Com programas como o FLdigi, para comunicação em diferentes modos digitais.
  • WSPR – Para estudos de propagação e monitoramento de sinais de baixa potência.
  • CW – Com ferramentas de manipulação, decodificação e apoio à operação, conforme o software utilizado.
  • SSB – Com filtros, equalização e processamento digital de áudio.

O equipamento pode integrar diferentes experiências sem que seja necessário trocar de transceptor. É preciso, naturalmente, configurar corretamente os caminhos de áudio, CAT/controle quando aplicável, níveis de sinal e interface entre os programas.

O Hermes Lite e o futuro do radioamadorismo

O desenvolvimento do Hermes Lite demonstra como a comunidade de radioamadores pode participar diretamente da evolução tecnológica. Seu projeto aberto permite estudar a eletrônica, compreender o funcionamento, desenvolver melhorias e compartilhar conhecimento.

Essa filosofia aproxima o radioamadorismo da cultura maker, do software livre e da experimentação. O conhecimento não fica concentrado exclusivamente nos fabricantes: o próprio radioamador pode estudar, testar, desenvolver e compartilhar soluções.

A integração entre processamento digital, automação e Inteligência Artificial pode ampliar ainda mais as possibilidades. No futuro, ferramentas poderão ajudar a identificar interferências, sugerir filtros e adaptar o processamento de áudio às condições de recepção. São possibilidades em desenvolvimento, não recursos garantidos ou necessariamente incorporados ao Hermes Lite.

Conclusão – mais do que um rádio, uma plataforma de experimentação

O Hermes Lite 2 não é apenas um transceptor QRP de aproximadamente 5 watts. É um exemplo de como componentes e tecnologias existentes podem ser adaptados, combinados e aprimorados por meio da colaboração e do conhecimento compartilhado.

Sua contribuição está na combinação de hardware aberto, processamento digital, separação entre as funções de radiofrequência e o processamento no computador, além da liberdade de experimentar diferentes softwares.

Ele permite explorar o espectro, trabalhar com modos digitais, experimentar diferentes interfaces e conhecer novas possibilidades de processamento de sinais. Quando acrescentamos ferramentas de Inteligência Artificial, percebemos que ainda há muito a descobrir.

O radioamadorismo sempre foi muito mais do que simplesmente apertar o PTT e falar com alguém do outro lado do mundo. É estudar, construir, experimentar, descobrir e compartilhar conhecimento.

“O futuro do radioamadorismo não está apenas nos novos rádios que compramos,
mas também nas possibilidades que somos capazes de desenvolver com a tecnologia que temos em mãos.”

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